sábado, 9 de abril de 2011

Vivendo nostalgicamente

Há muito tempo observo que eu vivo nostalgicamente.

Saudade de épocas, de pessoas, de tempos, de rotinas, de cheiros... Saudade de tudo. Sou uma pessoa movida pela saudade.

A saudade me faz falta, me sinto desanimada sem ela. Mas, hoje ela voltou, numa intensidade que me fez chorar. Não há nada mais dolorido que chorar de saudade. É uma dor que não passa. É um angústia irresolvível. Não dá pra driblar a saudade, ela está ali, você está sentindo-a, e não pode fazer nada, pois ela continuará ali, lhe perturbando, lhe fazendo chorar numa angústia interminável.

Apesar de tudo, saudade pode ser o remédio pra momentos de tédio e indiferença. Saudade pode lhe dar a dimensão exata do que você sente e do quando e como você quer algo ou alguém. A saudade responde perguntas, perguntas que surgem quando ela se acalma do canto desconfortável do costume.

Um antídoto para a saudade é a rotina. Para ter saudade, é preciso possuir a angústia da dúvida, o incômodo do medo de não ter mais, o não saber, o querer e não poder naquele instante. A rotina responde todas as suas perguntas. A rotina é calmante para quem já está com sono.

E vivo nostalgicamente, e, às vezes, tento transformar meu presente previsível em algo totalmente novo, para que eu mesma me surpreenda. Quem não gosta de surpresas? Boas, é claro.

Se pareço inconveniente, irresponsável, louca ou algo do tipo, entenda, vida minha, é porque lhe quero com emoção.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Passional

Às vezes me sinto tão pequena. Tão sozinha e vulnerável em meio a um universo tão grande. Às vezes.

Na maioria das vezes me sinto mesmo é ameaçada. Ameaçada de perder o que mais amo, as pessoas que mais amo. Aí fico agressiva. Aquele instinto selvagem. Animalesco e descontrolado.

Mas, no fundo, sei que tudo isso é fruto do meu jeito passional. Amo demais. Odeio demais. Choro demais. Brigo demais. Mas é porque amo. Amo muito e profundamente. Verdadeiramente. Meu combustível é o amor. E eu não sou nada se não puder amar.

Meu calcanhar de Aquiles é o meu coração. Me odeie de uma só vez, mas não me ame e depois me decepcione ou me magoe. Isso me faz ficar fraca a ponto de questionar o valor da vida.

Sou intensa. Intensa a ponto de perder o controle sobre mim mesma.

Mas, sei com muita certeza, que esta é a forma mais bela de existir. Existo porque amo. Amo porque existo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Inverno

A janela estava balançando de novo. Era o vento anunciando que o inverno estava chegando. Maravilha, o vento gelado fazia Sophia se encher de energia. Olhou no calendário, 29. Bela data.

Lavou o rosto, abriu a janela e sentiu o corpo todo se arrepiar. Um vento gelado acariciou seu rosto. O céu estava limpo, um sol tímido brilhava a leste.

Foi até a cozinha, ainda de pijamas velhos e olhos inchados e preparou seu chocolate. Sentou-se sozinha à mesa, como sempre em todas as manhãs, desde que a casa dos pais se tornou longe demais para seus desejos. Mas a solidão estranhamente não a incomodava naquele dia. Uma alegria intensa e desconhecida tomava conta de Sophia, parecia que tudo ia dar certo.

O chocolate quente acabou e Sophia olhou a caneca vazia. Ela sempre se perguntava quão únicos seriam os desenhos deixados pelos restos de chocolate dentro na caneca. Tão únicos como cada dia da vida dela. Ou não.

Sophia sentia que seus dias às vezes se repetiam, e que esta indiferença fazia com que ela se esquecesse de muitos deles. Dias iguais, pensava ela, para que gastar espaço da própria memória com eles?

Levantou da mesa e deixou-se relaxar pelo chuveiro quente. Terapia. Massagem. No corpo e na alma. Ao sair do banho, olhou pela janela e, vejam só, o dia havia nublado. Nada poderia ser mais perfeito. Sentou-se em sua escrivaninha, abriu seu diário e escreveu: hoje é o dia mais bonito e bobo da minha vida.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nota de Falecimento

Eu acho que hoje eu morri um pouco por dentro.
Não um falecimento patológico, médico, físico.
Foi uma morte psicológica. Um pedaço de mim se foi.

Palavras são armas certeiras que são capazes de matar.
A ferida que ainda está aberta custará a fechar.
Por mais que eu tente, o primeiro pensamento que me vem quando acordo é sempre o mesmo.

Eu acordo com a angústia que me perturba.
Eu acordo pela metade, com uma parte de mim arrancada.
Uma parte de mim morreu.

Não foi simplesmente um desmaio, um coma. Foi morte.
E dizem que a morte é a única coisa sem solução, sem volta.
É estranho procurar por si mesmo e encontrar um vazio.

Eu nunca mais serei a mesma. Hoje perdi uma parte do meu eu.
E perdi para o vazio.
Perdi pelas palavras que arrancaram de mim muitas vontades.

E que me tiraram algumas certezas.
Perdi muitas certezas de mim.
Não tenho as mesmas vontades, porque hoje não tenho a mesma capacidade.

Não sou completa.
Não sou totalmente eu.
Eu morri um pouco por dentro.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O sonho de Sophia

Sophia dorme sempre que se sente triste. Ela sente que se fecha os olhos e entra no mundo irresponsável, inconsequente e transcendental dos sonhos, os problemas reais se enfraquecem. Por um momento, até é verdade.

Sophia sentiu sua confiança esvair-se pelos vãos dos dedos, sentiu sua caixinha de música parar, percebeu que a bailarina que rodava, dançava e brilhava, já não brilhava mais. O brilho havia se apagado. Então Sophia dormiu.

Ela dormiu e sonhou com um lugar de céu púrpura, onde tudo era verdade, até o que não poderia ser. As nuvens eram de algodão, um coelho trazia ovos de chocolate, um bom velhinho lhe dava presentes no Natal e ninguém era mau. Absolutamente ninguém. Sophia sonhou com aquilo que acreditava, ela dormiu profundamente.

No sonho, Sophia tinha amigos que eram o que eram e pronto. A face de ninguém era capaz de alterar a verdadeira essência da pessoa. As pessoas, no mundo de Sophia, não interpretavam. Não existia mentira nem de mentirinha. Sophia era feliz, muito feliz.

Os dias eram quase sempre de sol, só chovia quando Sophia queria tomar banho de chuva. As pessoas não choravam, não existia tristeza. Sophia havia construído um castelo onde ela era uma princesa, num mundo onde todas eram princesas. E todos eram príncipes também.

O que Sophia não sabia é que, mesmo no sonho dela, onde há princesas há bruxas. E as bruxas resolveram sair para passear. Tudo mudou, desde este dia. Havia bruxas no sonho de Sophia. Ela estava sonhando com a própria realidade. Nada poderia ser tão perfeito assim. Mas Sophia não sabia, nem sabia também que dentro dela mesma estivesse toda a angústia do que vivia fora de seu sonho.

O sonho começou a se desfazer, como um algodão doce dentro da boca, que de repente ficou salgado. Num dado momento do sonho de Sophia, o céu caiu, os rios secaram, as nuvens sumiram e as máscaras caíram. Era tudo mentira. Uma bela mentira bem contada de Sophia para ela mesma.

E Sophia acordou.